O RÁDIO ESPORTIVO, NO FIM DO ANO, SANGRA

Alexandre Praetzel, José Maia, Vanessa Ruiz, Mauro Betting, Alex Müller, Antônio Tillemont, Anderson Matos, Hugo Aparecido, Léo Tillemont, Manoel Petetinga, Rainan Peralva, Sílvio Mendes Jr, Emerson Mendes, Paulo Cerqueira, João Andrade, Silvio Mendes, Alan Guimarães, Doni Vieira, Rafael Esgrillis, Deva Pascovicci, Willy Gonser, Rodrigo Campos, Kelly Dias, Marcos Martins, Cyro Neves, João Tavares, João Rocha, Gabriel Cabeça, Nicolas Baccarin, Paulinho, Brinquinho, Weber Lima, Rodrigo Machado, Erick Rodrigues e a equipe de esportes 730 AM.

O final de ano chegou, não apenas no calendário, mas nas programações e atrações esportivas da maior parte das emissoras radiofônicas que cobrem futebol no país. O calendário esportivo da CBF, que rege os principais eventos do esporte mais popular do país, “morreu” para 2015 com o término da 38ª rodada da Série A do Campeonato Brasileiro de Futebol, no dia 06/12. Junto com ele, as transmissões futebolísticas pelo rádio das partidas dos clubes de grande apelo para o público que consome essa plataforma, seja das grandes praças ou das cidades não tão badaladas em um cenário nacional de futebol, se foi.

Sem jogos, sem transmissões, sem transmissões, sem produto principal, que dá maior audiência nas emissoras de rádio, e sem assunto para o produto secundário, os programas diários, que muitas vezes e nas grandes praças consomem grande parcela do horário nobre das estações. O fim de ano, até o começo dos campeonatos estaduais, podemos ser mais complacentes e considerar a Copa São Paulo de Futebol Júnior como um produto de relevância no quesito arrendar ouvintes e temas de discussão, é um massacre de falta de assunto relevante, bombardeando, assim, as pautas e temáticas usadas de conteúdo pouco ou nada relevante, repetitivo e especulativo sem base, só lembrar o clássico “será que beltrano jogará no Gol Futebol Clube na próxima temporada?”.

O rádio esportivo, por alguma obscura razão, passa e entra ano, se renova pouco ou nada. As pautas, as abordagens, a maneira de se conversar com o ouvinte, os termos, as especulações e a forma de passar a informação, pouco mudou. Talvez possamos colocar como exceção o uso do Whats APP e das redes sociais, Facebook e Twitter, nesse balaio, já que os mesmos ganharam um espaço considerável nas transmissões e programas, não por mudança de estilo, já que a participação opinativa da audiência é velha colega da maneira de se fazer rádio esportiva, mas pela relevância e penetração atual desses meios na comunicação.
Essas considerações são importantes para chegarmos ao ponto que vem permeando as notícias sobre o jornalismo esportivo em rádio. As inovações possuem diversas formas de realização. Podem ocorrer por mudança de estilo das atrações, novas maneiras de se falar, de instigar o ouvinte, uso de novas tecnologias e plataformas de contato ouvinte-radialista e trocando o quadro de funcionários. A renovação daquele que passa a usar a farda de jornalista, comunicador, contador de histórias é sim uma forma eficiente e necessária de se renovar a maneira de fazer rádio na busca de aumento de audiência, credibilidade, responsabilidade e faturamento. Porém, as atuais demissões nos veículos de comunicação não se pautam por isso.

O jornalismo esportivo vem perdendo a cada dia que passa, e quem entra nos sites que informam as contratações e demissões de profissionais consegue perceber tal afirmação, espaço e relevância no rádio nacional. O uso da palavra relevância e a carga que ela leva pode ser questionado com razão, contudo, “linka-se” ao momento do jornalismo esportivo.
Não me pautarei pelas emissoras de pequeno e médio porte do cenário nacional, mesmo considerando que as estações mais regionais possuem também problemas que aqui serão apontados, mas por crer que o seu suporte financeiro e de audiência são menor no quesito avaliativo dos objetos que compreendo, não as analisarei.
Rádio Globo, Rádio CBN, Rádio Bandeirantes, Band News FM e Rádio Estadão todas essas estações paulistas, Rádio 730 AM de Goiânia, Rádio Bradesco Esportes FM e rádio Manchete, ambas do Rio de Janeiro, Rádio Transamérica de Brasília e Rádio Tudo FM de Salvador. Todas essas estações demitiram, nos últimos dias ou nos últimos meses, importantes e carimbados profissionais do meio esportivo, sendo muitos desses reconhecidos pelo público, pelo segmento e pelas próprias emissoras, funcionários do mais alto gabarito. São vencedores de prêmios de associações esportivas e do jornalismo geral, com anos de experiência, várias coberturas de copa do mundo e, alguns, profissionais escalados para as transmissões mais importantes das suas estações.

Oras, indagar-me tu, se tais profissionais demitidos são tão competentes e gabaritados, por que foram demitidos? Fiz-me a mesma pergunta e não consegui chegar a uma conclusão que divergisse do motivo financeiro. A chamada crise financeira, com cortes significativos do poder público nos investimentos afetou toda a roda econômica e, inclusive, com força, os anunciantes e patrocinadores. Quem, assim como eu, trabalha em rádio já sente que há déficit no departamento comercial e, claro, uma das formas de reduzir despesas, seja para manter o lucro patronal ou fechar as contas no azul, ou no zero, corta-se pessoal, demite-se.

As demissões podem vir seguidas de novas contratações, com salários menores e uma quantidade maior de funções para o novo funcionário. Eis a Rádio Bandeirantes da capital paulista para nos provar a comprovação dessa tese. Mandou embora 3 gabaritados jornalista e, para compensar, contratou um estagiário, excelente repórter, por sinal, com contra-cheque de estagiário, para suprir a demissão de um dos 3 jornalistas. Aumento o já inchado número de atribuições de outros profissionais e passou a utilizar narradores de outra emissora da casa, a Rádio Bradesco Esportes de São Paulo.

Falando na emissora que se propôs ser 100% all sports na sua programação diária, a Bradesco Esportes FM carioca, co-irmã da paulista, mandou embora 90% do seu quadro, já enxuto, pois as demissões na emissora vêm arrastando-se desde o começo deste ano, no ultimo dia 7. A única estação de rádio na capital carioca que se propunha a colocar diariamente o esporte como assunto exclusivo da sua programação está a um passo de fechar. Sendo, por sinal, já veiculada a informação de que após as olimpíadas o projeto irá encerrar-se de uma vez. Atualmente, apenas a retransmissão do programa da TV Band Rio, Os Donos da Bola, do mesmo grupo que comanda a Bradesco Esportes FM, não é programa retransmitido da matriz paulista. Além do sinal da Band Rio, a emissora terá como conteúdo local as jornadas esportivas dos jogos dos times cariocas de futebol. O que é praticamente nada comparada ao que já foi e com aquilo que é o projeto de rádio all sports.

As olimpíadas no Rio de Janeiro eram a grande esperança, ao lado da Copa do Mundo do ano passado, da crônica esportiva viver dias melhores. Talvez esteja vivendo, na televisão e na internet, pois no rádio o cenário mostra-se contrário. Rádios Globo e CBN de São Paulo, microfones tradicionais e de grande apelo no mundo jornalístico, com tradição e credibilidade na cobertura esportiva no dial, também participou do ultimo passaralho. 5 funcionários da Rádio Globo e o narrador titular da Rádio CBN de São Paulo foram comunicados que seus respectivos vínculos não iriam permanecer. A direção da emissora, que foi trocada, achou por bem unir o departamento de esportes das co-irmãs. 6 profissionais a menos na folha salarial e equipe menor, mais barata, para 2 estações. Um bom negócio, para os patrões, pois são 6 vagas a menos, que não devem ser preenchidas tão cedo.

Dói mais, pessoalmente, falar em fins de projeto. Aquelas que compunham a rádio Tudo FM de Salvador, 730 de Goiânia, Estadão de São Paulo e Transamérica de Brasília que o digam. 4 microfones de estados diferentes, que não precisam ser descritos pois sua importância é de conhecimento geral, estão no caminho ou já entraram no caminho do fim da área esportiva. Começou com a reformulação da Rádio Estadão, que achou por bem demitir a grande maioria de sua equipe, 50 funcionários saíram da folha de pagamento do grupo, e encerrar o já pequeno e maltratado departamento esportivo. 1 equipe a menos. Depois foi a equipe da Rádio Tudo FM de Salvador, que teve o não da diretoria da emissora quando foram tratar da renovação do arrendamento do espaço, que já é um grande absurdo equipes de esporte arrendarem o espaço para trabalhar dentro de emissoras, sendo terceirizados e tercerizantes, perante emissoras grandes e com departamento comercial, e não continuaram na estação. 12 desempregados de uma vez.

Absurdo que se propagou para o centro-oeste. A líder disparada nas pesquisas ibope de audiência do rádio goiano, que muito deve ao departamento esportivo, demitiu TODOS aqueles que faziam parte da sua equipe líder. Pensar a Rádio 730 AM acabando com o esporte e como pensar na Rádio Itatiaia, ou na Rádio Gaúcha, ou na Jornal de Pernambuco, fazendo o mesmo. Incrédulo fiquei quando soube e difícil foi para acreditar nessa noticia que se mostrou verdade. Ao menos a equipe de esportes, após tal decisão, novamente empreendida por nova diretoria, ficarei. Não mais como funcionários da rádio, que eram, mas pelo sistema de arrendamento de espaço. Pagarão para trabalhar.

Do lado do estado goiano, a capital Federal pode sofrer a baixa de uma das raras equipes de esportes locais. A equipe da Rádio Transamérica de Brasília, que divide a liderança do segmento com a Rádio Nova Aliança, foi informada que a emissora não deve permanecer com o projeto de sucesso para o próximo ano. 6 profissionais de um dos mercados mais castigados do segmento, devem passar para a turma dos sem estação.

O mais interessante é que essas mudanças não são feitas para somar com o meio nem com o segmento, contudo para encerrar departamentos de sucesso, equipes que chegam a ter 70 mil ouvintes por minuto e que fazem o que de melhor se tem no espaço esportivo.

A crise no Rádio Esportivo aparece novamente, fazendo-se chegar e comandar as poucos, visitando cada redação, levando lentamente peça por peça, ou muitos de uma vez.
O Esporte em rádio não está morto, não sofre perdas estrondosas de audiência e respeito, porém parece que esse caminho começa a ser trilhado. Não pelo rádio esportivo em si, sobretudo pela visão dos patrões que começa a tomar de conta e sangrar o Rádio Esportivo Brasileiro.

Que o calendário de 2016, as olimpíadas e a sorte, nos tragam boa noticias.

E para você que até agora está curioso em saber os nomes que estão no primeiro parágrafo desse texto, te digo. São os nomes dos profissionais demitidos e apurados por este autor, em grandes emissoras de rádio com fortes departamentos de esporte, nos últimos dias, e alguns, nos últimos meses. Que sejam lembrando e que seus nomes tragam bons tempos.

Autor:
Bruno Henrique de Moura.
É narrador,repórter e apresentador da equipe de esportes da Rádio Nova Aliança de Brasília, trabalha na F aculdade de Comunicação da Universidade de Brasília e estuda Direito na Faculdade de Direito da UNB.

Foto: Arquivo pessoal